sexta-feira, 3 de junho de 2022

Cumacanga - Folclore Brasileiro

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Cumacanga  Folclore Brasileiro

       Já é do conhecimento daqueles que estudam sobre magia e criaturas da noite, a ligação das histórias de bruxas e lobisomens com o cabalístico número sete em uma família. Contudo, no Brasil, nos estados do Pará e Maranhão, também é dito que na prole inteiramente feminina de um amor sacrílego, a sétima filha é fadada a transformar-se na flamejante e caótica Cumacanga.
       Ao sombrio escurecer pelo sol decadente, a cabeça se solta da mulher amaldiçoada, deixando o corpo abandonado em casa, e fica envolta em chamas, transfigurada numa bola de fogo errante, de face e gargalhadas assustadoras. Um evento condenado a se repetir todas as sextas-feiras.
       Ela gira revolta e à toa pelos campos e estradas, num vagueio imprevisível. A cabeça voadora parece perder a consciência de quem era, apavorando sem distinção a todos, como um pesadelo tomado em combustão infernal. Muitos dizem que ela não faz mal direto a ninguém, “apenas” causa terríveis sustos. Mas há testemunhos onde ela persegue as pessoas, avançando às crescentes dentadas.
       Textos e crenças antigas sugerem uma possível forma para se livrar da tenebrosa maldição, com a filha mais velha, a convite da mãe, se tornando madrinha de batismo da mais nova. Alguns populares também sussurram em desespero, que na realidade a desgraça cai sobre a própria mulher que teve relações com o padre, onde a mesma é a derradeira vítima da transformação, a exemplo da implacável Mula-sem-cabeça, que há tempos integra os nossos enredos de horror.
       Oriunda de uma provável confluência europeia e indígena, a Cumacanga, ou Curacanga, como é chamada pelos habitantes do Nordeste, também carrega o sofrimento do pecado cristão em seu deambulo pelas sombras moldadas no recontar brasileiro.
       Essa carranca feminina de cabelos e olhos dominados por labaredas, deixa um rastro súbito de medo. E sua jornada noturna só tem fim pelo cantar do galo, quando retorna para o corpo. Em um regresso ao seu ciclo de penitência.

Caio Sales é ilustrador e escritor. Pós-Graduado em Marketing pela PUC-Campinas; e Pós-Graduando em Sociologia, História e Filosofia pela PUC-RS. Também é membro da Associação de Escritores de Bragança Paulista (ASES) e da Associação Brasileira dos Escritores de Romance Policial, Suspense e Terror (ABERST). @caiosales_art

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