domingo, 10 de janeiro de 2021

Kupen-dyêb – Mitologia Apinajé

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Kupen-dyêb  Mitologia Apinajé

       Nas regiões que hoje compreendem a bacia do Araguaia-Tocantins, especificamente nas terras tocantinenses, de acordo com os Apinajé, subindo por uma grande serra, dentro de uma tenebrosa e hostil caverna, vivia uma insólita nação de indígenas com asas de morcego, conhecidos como Kupen-dyêb – também grafados como Kupê-dyeb ou Cupendiepe; nomenclatura que pode ser traduzida como povo morcego.
       Segundo as narrativas orais, essas criaturas aladas vagavam somente ao anoitecer, voando armadas com seus machados semilunares; que são referidos assim pois detinham o formato de uma lua minguante, como se fossem pequenas âncoras de pedra. Os Kupen-dyêb conduziam tais armas pela escuridão dos céus, degolando brutalmente pessoas e animais noite adentro com suas investidas rasantes, desferindo uma forte pancada na cabeça daqueles que ousavam aproximar-se do seu território.
       Certa vez, um menino e dois caçadores Apinajé ousaram pernoitar justamente nas redondezas do inóspito território da tribo morcego. O perigo não demorou a surgir. Nos primeiros minutos após o pôr do sol já era possível ouvir o estrídulo gargantear dos Kupen-dyêb. Com medo, o garoto indígena foi logo escondendo-se pelas matas, de onde viu o triste fim dos dois descuidados caçadores, que permaneceram estáticos ao lado da fogueira que haviam acendido, e literalmente perderam a cabeça.
       O menino foi bastante ágil e conseguiu fugir de volta para sua aldeia, ofegante de tanto correr, e todo apavorado, contou aos líderes sobre o terrível ocorrido. Foi quando os Apinajé reuniram guerreiros de todas as suas aldeias para confrontar os monstros. Decidiram agir na alvorada, subindo bravamente a serra em busca da lendária gruta, antes que anoitecesse.
       Ao descobrirem o local, os guerreiros obstruíram as entradas da caverna com palhas secas e folhas verdes, incendiando-as. Ainda assim, alguns poucos Kupen-dyêb conseguiram escapar por uma fenda, voando desesperadamente, mesmo à luz do dia, na tentativa de sobreviver. Resistindo até mesmo às flechadas disparadas pelos Apinajé. Entretanto, esses alados notívagos que teoricamente remanesceram, nunca mais foram vistos.
       Quando a fumaça dispersou, os Apinajé adentraram o mórbido covil, empunhando longas lanças, para averiguar se todas as criaturas no interior estavam mortas. Já nas profundezas, havia apenas um único ser daquela estranha raça que ainda estava vivo. Era uma criança, encontrada de braços cruzados e levemente encolhida, dormindo de cabeça para baixo num canto, em meio às pilhas de corpos incinerados, como um legítimo morcego, mas que de tão nova ainda não tinha asas. Os guerreiros indígenas queriam matá-la, mas um deles teve piedade e resolveu levá-la para ser criada em sua aldeia – os outros angariaram enfeites e machados semilunares para a tribo.
       O pequeno Kupen-dyêb adotado não conseguia adaptar-se aos novos costumes, estava sempre chorando e recusando qualquer alimentação que não fosse milho. Sua maior dificuldade era para dormir, pois não queria ficar deitado. Encontrava-se sempre procurando algo no ar. Assim, o guerreiro que o salvou teve uma ideia. Tentando emular as armações verticais que testemunhou na caverna do povo morcego, fincou duas forquilhas no chão e as atravessou com uma vara, onde pendurou a criança de ponta-cabeça. Dessa forma, ela finalmente conseguia dormir; mas, mesmo assim, poucos dias depois de sua chegada à aldeia, não resistiu e morreu. Sua memória no entanto não foi esquecida, pois os Apinajé continuaram a entoar cantigas dos Kupen-dyêb, que foram brevemente ensinadas pelo pequeno.

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