sexta-feira, 26 de junho de 2020

Onça Celeste – Mitologia Tupi-Guarani

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Onça Celeste  Mitologia Tupi-Guarani

       A observação e os mistérios do céu contemplam a base do conhecimento da maioria dos povos da antiguidade. Esses registros dos fenômenos celestes foram impulsionados pela influência das estações do ano e das variações do clima sobre a fauna e a flora – desde os primórdios tais fenômenos cíclicos controlam atividades como caça, coleta e lavoura.  O dia e a noite, a compreensão das movimentações do sol e das fases da lua, além da percepção da localização das constelações, sempre auxiliaram nossa sobrevivência.
       No entanto, esse ciclo harmonioso que a maioria dos povos buscavam nos céus era quebrado com a chegada de um eclipse. Tal evento simbolizava o caos e a ruptura do equilíbrio. Fenômeno constantemente ligado aos mitos de destruição do mundo. Assim, diversas culturas simbolizavam os eclipses solares ou lunares com uma imensa criatura monstruosa devorando o sol ou a lua. A exemplo dos lobos gigantes Hati e Sköll, perseguidores e devoradores da lua e do sol – respectivamente –, que são peças-chave do Ragnarök, o fim do mundo na mitologia nórdica.
       Em terras sul-americanas a conexão entre criaturas catastróficas e eclipses também ocorre. O folclorista norte-americano James Deutsch, em seu artigo “Swallowing the Sun: Folk Stories about the Solar Eclipse”, publicado em 2017, narra uma crença do povo Apopocúva-Guarani do Brasil e do leste do Paraguai, na qual dizem que os eclipses solares são causados pelo Morcego Eterno ou pela Onça Celeste – seres mitológicos extremamente poderosos e devastadores. Acreditam que chegará o dia em que essas duas entidades destruirão as estrelas e a humanidade, desencadeando o fim do mundo. O premiado cientista brasileiro Germano Bruno Afonso, físico e astrônomo, especialista em arqueoastronomia e estudioso das constelações indígenas, em seu artigo “Saberes astronômicos dos tupinambás do Maranhão”, publicado em 2012, também fala em tom apocalíptico sobre a temida Onça Celeste, trazendo complementos à lenda.
      A Onça Celeste é um espírito maligno da Mitologia Tupi-Guarani, entidade calamitosa relacionada aos eclipses. Causadora da escuridão e de incalculáveis pavores, a Onça Celeste é representada como uma criatura colossal de cor e aura azuladas, um ser primordial de dimensões inconcebíveis, tão titânico que seu olho direito é representado pelas estrelas vermelhas de Antares, da constelação de Escorpião, e de Aldebaran, da constelação de Touro. Essas constelações ficam em oposição no zodíaco; declarando a vastidão da entidade que se localiza em dois lugares opostos do céu.
       É dito que a Onça Celeste está sempre perseguindo os irmãos Guaraci e Jaci (sol e lua), que a importunam desde os princípios do espaço e do tempo, praticando diversas traquinagens contra ela. A fera azul e impiedosa transforma os céus em seu terreno de caça, abocanhando e arrancando pedaços de Jaci – dilacerações manifestas nas fases da lua. O eclipse lunar é a consequência fatal das vezes que a Onça Celeste consegue devorá-la por completo, enquanto os fenômenos que invocam um luar avermelhado são o próprio sangue de Jaci. No entanto, Guaraci sempre ressuscita e salva sua entidade irmã, fazendo a lua ressurgir gloriosamente.
       Porém, mesmo com as astutas intervenções de Guaraci, um medo ainda paira sobre os Tupis-Guaranis. Temem o dia em que a Onça Celeste, após banquetear-se de Jaci, também consiga devorar o sagaz irmão, ocasionando seu reinado de destruição. Então, neste caso, para evitar que a Terra seja coberta pela mais perturbadora tenebrosidade total, os indígenas fazem uma tremenda barulheira durante os eclipses, tentando espantar a entidade maléfica antes que ela também devore o sol –  erradicando a luz e trazendo o fim do mundo.

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